A ANOMALIA

 






24/07/2021 






Ninguém podia prever que o evento climático anunciado no Jornal da TV na noite de 2042, como “onda de frio esperada essa madrugada no Rio de Janeiro, trazendo temperaturas extremamente baixas”, ultrapassaria exageradamente a expectativa de mais uma queda abrupta na temperatura acompanhada de temporais e ventania, como agora se tornara um padrão climático na cidade nos últimos seis anos, precisamente desde o inverno de 2024. Aquele inverno foi uma espécie de ‘volta do parafuso’, a partir da qual nada mais voltou ao que tinha sido não apenas no clima, mas na vida em seu sentido mais largo – na sobrevivência, para resumir numa palavra.

Embora a temperatura não tivesse ultrapassado os 18º nas horas mais quentes do dia nas 4 últimas semanas, o que é muito frio para o Rio de Janeiro mesmo para o mês de julho, ninguém podia imaginar que às 04,30 da madrugada a cidade iria ser atingida por uma nevasca que despencava da estratosfera como uma torrente silenciosa de flocos, enquanto a temperatura despencou tão abruptamente que os cariocas, mesmo os que agora iam para cama com meias e se encolhiam sob edredons e cobertores, foram arrancados do sono pela sensação apavorante de que estavam congelando vivos.

Eu corri tiritando até a área de serviço para fechar a janela, que mantinha sempre aberta por precaução com o aquecedor de gás. Foi quando vi a precipitação caindo no vão que formava um quadrilátero entre as colunas dos apartamentos. A sua densidade lhe dava um corpo etéreo, mas ainda assim consistente, nessa dimensão quase impalpável que os corpos fluidos adquirem ante nosso olhar como um aviso de perigo, tal como a água aparecendo sob o vão de uma porta ou fumaça se infiltrando pelas rachaduras de uma parede. Assim era a neve caindo. Não acabava, não parava, inextinguível, se acumulando silenciosamente no piso do quadrilátero 4 andares abaixo do meu apartamento.

Pus o braço para fora da janela e virei a palma da mão aberta para sentir o contato dos flocos brancos com a minha pele. Tinham a consistência de um sopro. Eu não saberia descrever a neve com outra palavra. Talvez os esquimós e os lapões tenham uma variedade maior de palavras para descrever a neve. Não senti o frio no primeiro instante, mas logo a sensação daquele contato se tornou quase dolorosa e insuportável. 

Fechei a janela da área e voltei para a sala onde passava a maior parte da minha vida, dormindo defronte da TV. Todas as luzes dos prédios em frente ao meu edifício estavam acesas. As pessoas gritavam das janelas. Algumas se debruçavam sobre o peitoril de uma forma que pareciam querer pular dentro da neve que continuava tombando verticalmente. Por um instante imaginei estar sonhando. No canto da tela o relógio marcava 04;50. Voltei para a cozinha, pus uma panela no fogo para ferver água e fazer um café. 

O frio me pareceu suficiente para um gole de uísque. Peguei um copo, enchi pela metade e afundei no sofá diante da TV: imagens de ruas e vistas do Rio cobertas de neve. Logicamente eu não estava sonhando. A silhueta do Cristo no Corcovado sob o lençol branco era fantasmagórica. Um estrondo abaixo na rua me trouxe para a janela novamente. 

Um Fiat patinara na lama formada pela neve e deslizou até atingir dois carros estacionados. Uma buzina começou a soar com a intermitência estridente de um alarme. O motorista do Fiat engrenou pra sair de ré. Outro carro vinha por trás e freou. Mas o carro deslizou sobre a pasta pegajosa e bateu na traseira do Fiat. Um sujeito apareceu na porta do prédio e veio até um dos carros batidos. O motorista do Fiat saltou. O sujeito que vinha por trás também abriu a porta, botou o pé na rua, mas não saiu do carro. O sujeito do edifício terminou de examinar o carro batido e veio até o motorista do Fiat. O cara do Fiat deu um empurrão no sujeito do edifício. Eles começaram a se esbofetear imediatamente. Tudo foi muito rápido. 

Foi quando lembrei da panela no fogo. A água devia ter evaporado depois de tanto tempo fervendo. O botão do fogão estava virado. Mas a chama estava apagada. Fechei o botão e abri a janela.  Dei um tempo pra ventilar. O frio era insuportável. O ar mal saia da minha boca e se condensava num floco. Voltei a abrir o gás e premi o botão da centelha elétrica. Nada. Não havia gás. O gás encanado não mais circulava. Vozes de pessoas gritando e falando alto nos outros apartamentos no prédio. Ruídos surdos de pés batendo no chão. Correria. Fechei a janela. “Será que chegou o fim”, resmunguei?

O fim se tornou numa possibilidade cada vez mais presente desde que o Covid19 apareceu na Terra e se instalou entre nós há 20 anos. Nunca mais saiu. Foi contido, é claro, mas o vírus continua espreitando, esperando pra ceifar a sua seara anual de infectados. Depois que se instala num organismo, ele vai continuar atuando ainda que a infecção seja branda e o contaminado não precise de UTI: a reduzida capacidade pulmonar é o que vai erodir o sujeito. O seu vigor desaparece gradualmente e o cansaço recorrente deixa as pessoas sombrias, desanimadas e solitárias. Por fim – esse era o fim – perdem a vontade de viver – tenho pra mim que a melhor descrição da abdicação da vontade, é quando soltamos da borda e afundamos numa piscina querendo ficar lá embaixo para sempre. Não é possível compartilhar esse desejo com ninguém, seria incompreensível se o tentasse pois é como desviar o olhar de alguma coisa ou deixar de escutar alguém, quando tudo se torna homogeneamente desencantador. Esse era o fim. 

Desde o último quarto do século XX nossa espécie tinha sido visitada por uma sucessão de pestes, pragas, epidemias, e desastres naturais: AIDS, Ebola, Chicungunha, Furacão Katrina, degelo do Ártico,  secas prolongadas, 200 milhões de pessoas deslocando-se pelo mundo sem ter o que comer ou beber, incêndios florestais imensos na Amazônia e na Califórnia, desertificação, aumento da temperatura global, subida do nível dos oceanos, enchentes e quebras de safras dos alimentos junto com a extinção em massa de animais e proliferação de insetos, que agora se multiplicavam livremente sem os predadores que controlavam a sua população.

Na mesma proporção da destruição, nossas expectativas de sobrevivência diminuíam. E, ao mesmo tempo, a Covid19 nos mostrou que estávamos entrando no ocaso de nossa civilização e o começamos a dar conta de que o Homo Sapiens podia desaparecer na Terra em algumas gerações, simplesmente por se tornar incapaz de aspirar suficiente oxigênio para sobreviver.

Em todo o mundo o nível das águas dos oceanos estava subindo, enquanto em 2030 as fontes naturais de água potável do Rio de Janeiro estavam minguando rapidamente. Foi nessa época que minha mulher propôs ir embora e procurar uma nova vida no interior do país. Ela tentou me convencer de que poderíamos recomeçar em um lugar que oferecesse mais segurança para nós, pois o prédio em que morávamos fica no quarteirão entre a Barata Ribeiro e a rua Toneleros, que o nível do oceano tornara perigosamente perto da sua fúria.

Embora não diretamente afetados, as ressacas se tornaram cada vez mais violentas e a Avenida Atlântica foi engolida pelo mar, de modo que os habitantes da faixa costeira da cidade desde o Flamengo até o Leblon tiveram que abandonar seus apartamentos. Isso, por sua vez, produziu o colapso do sistema de serviços voltado para o turismo. Os hotéis da orla foram fechados e o Copacabana Palace se tornou uma ruína com a água do mar invadindo até o 1º andar daquele símbolo de luxo e classe no Rio de Janeiro.

Essa arrumação urbana não foi feita sem eventos dolorosos, depois que uma lei compulsória de despejo foi promulgada para desocupar apartamentos alugados, agora oferecidos a preços extorsivos para os migrantes urbanos expulsos da orla. Famílias que não tinham condições de pagar foram varridas para o meio da rua junto com mobília, utensílios e roupa, ficando expostas aos ataques de saqueadores que a polícia não conseguia reprimir e que agiam livremente em toda parte. 

Desde o furacão Katrina, em 2005, se tornou conhecida como “capitalismo de desastre” a tática brutal de usar a desorientação das pessoas após um choque coletivo – guerras ou desastres naturais - para promover medidas radicais chamadas de "terapia de choque”. A tática segue um padrão claro: esperar por uma crise (que também pode ser produzida ou fomentada) declarar medidas que podem ser classificadas como de “política extraordinária”, suspender algumas ou todas as normas democráticas – ou como disse um dos principais ideólogos do capitalismo de desastre -  “como espécie”, os humanos sempre se adaptaram. “Então vamos nos adaptar a isso. Mudanças nos padrões climáticos que movem as áreas de produção agrícola - nós nos adaptaremos a isso.”

A ideologia do capitalismo de desastre funciona da seguinte maneira: quando tudo foi destruído como aconteceu na Louisiana em 2005 e no Haiti no terremoto de 2010: os moradores de New Orleans e os de Port au Prince foram considerados “inimigos”. Em ambas cidades as tropas chegaram sob o pretexto de manter a ordem, mas, de fato, para estabelecer um cinturão de segurança para os empreiteiros encontrarem maneiras de lucrar com o desastre, mesmo que milhares de moradores de ambas cidades fossem tratados como criminosos perigosos apenas por tentarem sobreviver.

Em Copacabana em 2030, um aparato jurídico declarou as pessoas atingidas pelos despejos compulsórios como “foras da lei”.  Uma onda de suicídios se propagou, de modo que o efeito que começara nas ondas do mar arrebentando na costa, invadindo prédios e isolando seus moradores, agora se multiplicava como vagas sucessivas do que parecia um tsunami social atingindo todos os bairros e arruinando a cidade.

Copacabana e por extensão toda orla, se tornou uma espécie de zona proibida, onde apenas permaneciam os que não tinham condições de mudar para outros bairros ou os proprietários de apartamento como nós que não corriam o risco de despejo. Porém as condições de vida no bairro entraram em completa decadência, os mercados sumiram, agências bancárias fecharam, clinicas desapareceram, lojas e todo o comércio quase sumiu inteiramente. As ruas foram tomadas por uma multidão de indigentes, que disputavam o domínio dos prédios mais ou menos desocupados onde a luz e o gás haviam sido cortados por falta de pagamento dos antigos inquilinos. Os antigos moradores como nós, passávamos o dia trancados e ainda mais apavorados à noite, com a vaga humana que invadia tudo e transformava os apartamentos em verdadeiros cortiços de onde vinha o ruído das marteladas incessantes no afã de levantar tabiques para amontoar mais moradores.

“Isso é o fim”, minha mulher repetia, “tudo está virando uma merda”. Não estávamos acostumados com a catástrofe que nos atingira e ainda utilizávamos de antigas palavras e expressões para uma condição completamente nova e distinta para a qual não estávamos preparados. Uma merda! No final “a merda”, foi que a lei de desejos compulsórios se transformou num tiro no pé. Os inquilinos não apareceram, pois, os desalojados da orla queriam morar em bairros o mais longe possível do mar. E não houve como reintegrar os antigos moradores, agora que os prédios estavam tomados e foi impossível expulsar os invasores e restaurar as depredações. Copacabana se transformara rapidamente numa ruína. 

Estávamos testemunhando o colapso de tudo o que tinha sido considerado estável. Nisso também estávamos em sintonia com o resto do mundo, pois a decomposição ambiental passava a erodir as sociedades e talvez o próprio individuo, e seus efeitos eram aumentados pela permanência da infecção de Covid19, que se tornara endêmica. Nos momentos de esfacelamento do ambiente social o controle sanitário deixa de ser prioritário e a pandemia recobrara vigor.

As cidades em todo mundo perderam o seu caráter unitário, o que deu origem à multiplicação de bairros mais ou menos autônomos, onde os cidadãos tentavam se organizar para manter uma ordem ainda que precária para defender seus interesses pessoais. Nós iríamos aprender da maneira mais difícil, que uma cidade dividida contra si mesma não pode subsistir. 

A primeira consequência foi a milicianização dos cidadãos, pelo que os moradores foram submetidos a regulamentos de controle e vigilância dos limites de seu bairro, de modo que se uma pessoa precisasse ir a outro bairro teria que informar quando e a que horas iria sair, qual o percurso e a sua finalidade. Para resolver interesses e necessidades comuns, foi estabelecido um sistema de alianças com a finalidade de obter água potável, eletricidade e combustível. Esse sistema nada mais produziu do que aumentar a rivalidade entre as milícias que controlavam suas áreas. Famílias se dividiram, com alguns membros optando por se unir à uma facção, enquanto outros simplesmente acabaram confinados em áreas em que foram obrigados a permanecer. Um fator decisivo para os confinamentos obrigatórios foi a profissão ou conhecimentos que as pessoas possuíam como médicos, eletricistas, mecânicos ou engenheiros, que os tornavam particularmente valiosos. Os antigos bairros agora adquiriram um status de rivalidade como burgos medievais nas mãos de barões e duques despóticos.

O colapso da comunidade urbana do Rio de Janeiro não aconteceu com a velocidade de uma erupção vulcânica cobrindo tudo de lava incandescente, ou como os efeitos de um maremoto empurrando o oceano terra adentro. Em vez disso, procedeu como o despedaçamento das gigantescas massas de gelo sob a pressão do aquecimento global, deixando para trás apenas os estilhaços na forma de reduzidos blocos de gelo boiando num oceano cada vez mais quente. 

O aquecimento da temperatura do planeta e a subida do nível dos oceanos produziram impactos no tecido social que se esgarçou, de modo que “remendos” e improvisos foram criados para segurar os pedaços das sociedades durante o tempo que ficou conhecido como o Derretimento. Onde o remendo não funcionava, o conflito armado estourava. As barricadas se tornaram parte da paisagem. Estava acontecendo nas cidades e nos campos de todo o mundo.

Em 2029 Copacabana começou a se desintegrar à medida que o mar ia avançando até a Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Milhares de pessoas foram obrigadas a deixar os prédios onde os andares mais baixos foram invadidos pelo mar. Muitos edifícios se desmancharam e ruíram sob o impacto das ondas.  

Os que permaneceram nos andares mais altos resistiram por um tempo através de um sistema de pontes feitas com pranchas de madeira sustentadas por cabos de aço. Mas logo a vida se tornou impossível para eles, pelas condições de higiene, completa falta de energia, impossibilidade de receber socorro em caso de desabamentos ou – no que se tornara uma praga – incêndios, pois a única forma de cozinhar era com fogões à lenha arrancadas de portais, tacos e pisos. 

Blocos inteiros queimaram como braseiros durante dias, cujas colunas de fumaça produziram uma grave intoxicação pelo monóxido de carbono, numa população que já estava debilitada pela redução da capacidade pulmonar pelas variantes da Covid19 que depois de 10 anos não havia desaparecido.

Os desalojados formaram bandos armados e começaram entrar nos prédios do lado “seco”, se instalando nos apartamentos de onde os moradores tinham fugido ou expulsando à força os antigos donos que tentavam resistir. Centenas de pessoas morreram ou foram massacradas em combates, que pareciam uma guerra pela intensidade. Nem um único edifício ficou intato. 

Foi quando os vizinhos do meu prédio decidiram se armar para resistir aos invasores. Pusemos abaixo todas as árvores da rua pra facilitar a visão e deixar os intrusos expostos aos nossos tiros. Grades foram fixadas nas janelas e os apartamentos dos dois primeiros andares foram desocupados e preenchidos com todo tipo de entulho para os tornar um obstáculo ao seu avanço se chegassem a entrar no prédio. Os seus moradores foram espalhados entre outras famílias; ao fim nos tornamos uma única família, com todos os inconvenientes que essa formação social acarretava.

Criamos um sistema de vigilância e de turmas que saiam para buscar suprimentos - providenciamos um estoque do que poderia ser necessário - basicamente comida e medicamentos; no terraço da cobertura montamos uma cozinha comunitária para todos. O nosso reduzido arsenal e a munição também ficaram na cobertura. Obter armamento foi o mais complicado. E dispendioso.

Alguém já disse que homens inteligentes se adaptam ao mundo. E que por sua vez homens burros, adaptam o mundo à sua estupidez. Uma parte da história humana se passou na primeira metade da sentença. Nós que chegáramos até esse momento, estávamos sofrendo as consequências por termos adotado a segunda parte da sentença, a última parte. Nos levou a destruir o planeta. Agora estávamos confinados ao nível mais elementar da sobrevivência, para imaginar que os homens poderiam encontrar uma solução comum e benéfica para todos. 

Assim, só restava a guerra: invasões, ataques, assaltos, sequestros e atentados alcançaram uma escala nunca vista, pois não era mais a guerra de uma Nação contra outra, mas a agressividade se tornara a única forma de contato entre as pessoas. Isso acontecia em todos os países, nas cidades, nas ruas, até nos condomínios de apartamentos: blocos se uniam contra outros para obter mais água e energia, que se tornaram cada vez mais escassos. O período ficou conhecido como “o grande pulo atrás”.

Nos primeiros vinte anos do século XXI, a noção de que as condições para a subsistência de nossa espécie estavam definitivamente esgotadas, para não dizer suprimidas, se tornou plenamente admissível pela maior parte da Humanidade. Todas as tentativas para reverter esse quadro haviam fracassado ou pior, a maior parte das tentativas foi abandonada ou sabotada ou ignorada, pois a mudança significava abandonar hábitos e sucatear todo o sistema de vida que o Homo Sapiens vinha aperfeiçoando e consolidando desde pelo menos 300 mil anos, baseado inteiramente na destruição de tudo o que houvesse em seu habitat.

Essa admissão de que o esgotamento dos recursos era inevitável funcionava sobre um mecanismo psicótico que podemos descrever como a “atração pelo suicídio”.

(continua)











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